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Como Funciona e Conceitos · Guia de Cálculo

Como calcular o valor presente do seu precatório: a fórmula, o passo a passo e a régua que diz quando não vender

Guia Informativo · Equipe Única Ativos · Atualizado em 24 de julho de 2026

🎯 Resumo direto: O valor presente é quanto o seu precatório vale hoje, considerando que ele será pago no futuro e que continua sendo corrigido até lá. É o único número que permite avaliar se uma proposta de compra é boa ou ruim — comparar a oferta com o valor de face é o erro mais caro que um credor comete.

A fórmula é uma só: VP = V₀ × (1+i)t ÷ (1+r)t. Você precisa de quatro dados: o valor de face atualizado, a taxa que corrige o crédito (hoje, IPCA + 2% ao ano, limitada à Selic), o prazo estimado até o pagamento e a taxa de desconto. Este guia explica cada um, faz a conta com números reais de julho de 2026 e mostra a régua que indica quando a resposta honesta é esperar.

Se você recebeu uma proposta para vender o seu precatório e não sabe se ela é boa, o problema não é de negociação — é de informação. Todo comprador calcula o valor presente antes de fazer uma oferta. Poucos credores calculam antes de aceitar. É dessa assimetria que nasce o deságio abusivo.

Este guia entrega a conta que a mesa de operação faz. É a mesma matemática, com os mesmos parâmetros. Ao final, você vai saber refazê-la com os seus números.

Por que o valor de face não diz nada

Um precatório de R$ 100 mil não vale R$ 100 mil hoje. Ele vale R$ 100 mil no dia em que for pago — e esse dia pode estar a oito meses ou a doze anos de distância. A diferença entre esses dois cenários é enorme, e não aparece em lugar nenhum do ofício requisitório.

Há duas forças puxando em direções opostas:

  • O crédito rende enquanto espera. O precatório não fica congelado. Ele é corrigido mês a mês, e ao fim da fila vale mais do que vale hoje. Ignorar isso é o erro que mais empurra credor para venda barata.
  • Dinheiro no futuro vale menos que dinheiro hoje. Receber R$ 100 mil daqui a seis anos não é a mesma coisa que receber agora — você deixa de usar, investir ou quitar dívida durante todo esse tempo. Esse custo tem nome: custo de oportunidade.

O valor presente é o número que equilibra as duas forças. É o resultado de perguntar: quanto eu precisaria receber hoje para ficar indiferente entre pegar esse dinheiro agora e esperar o pagamento lá na frente?

A fórmula

VP = V₀ × (1 + i)t (1 + r)t
VP — Valor Presente: o preço justo do crédito hoje
V₀ — Valor de face atualizado na data-base
i — Taxa anual que corrige o crédito (hoje, IPCA + 2% a.a.)
t — Tempo estimado, em anos, até a liquidação
r — Taxa de desconto: custo de oportunidade + prêmio de risco

Lida em português: o numerador projeta quanto o crédito valerá no dia do pagamento; o denominador traz esse valor de volta para hoje. O que sobra é o valor presente.

Quando r é maior que i — o que é a regra, porque o comprador exige retorno acima da correção legal —, o valor presente fica abaixo do valor de face. Essa diferença é o deságio. Ele não é arbitrário: é aritmética.

Os quatro dados que você precisa levantar

V₀
O valor de face atualizado

Não é o valor da sentença. É o valor homologado no ofício requisitório, na data-base ali indicada, com a correção acumulada até hoje.

Atenção a uma armadilha: compare sempre bruto com bruto ou líquido com líquido. Uma proposta líquida comparada a um valor de face bruto infla o deságio aparente e distorce toda a análise. Do bruto ainda saem honorários contratuais, IRRF sob o regime RRA e eventuais retenções.

i
A taxa que corrige o crédito

Desde a EC 136/2025, os precatórios são corrigidos por IPCA acrescido de juros simples de 2% ao ano, limitados, no conjunto, à taxa Selic. Duas ressalvas importam:

(a) o novo índice vale da promulgação em diante, inclusive para o estoque já inscrito — a correção acumulada pelos regimes anteriores é preservada; (b) precatórios de natureza tributária seguem corrigidos exclusivamente pela Selic.

t
O prazo estimado até o pagamento

É a variável mais decisiva e a mais ignorada. Consulte a lista cronológica do tribunal e veja qual ano-base está sendo liquidado agora. A distância entre esse ano e a inscrição do seu crédito é o seu prazo estimado.

Precatórios federais tendem a ter prazo curto e previsível. Estaduais variam conforme a saúde fiscal. Municipais em regime especial podem levar mais de uma década — e, desde a EC 136, os grandes devedores não têm mais data-limite para quitar o estoque.

r
A taxa de desconto

É o retorno anual exigido por quem compra. Soma duas parcelas: o custo de oportunidade (quanto o capital renderia em outra aplicação — hoje a Selic está em 14,25% ao ano) e o prêmio de risco, que varia conforme o ente devedor, o prazo e a qualidade da documentação.

Aqui está o ponto que o credor pode influenciar: documentação limpa reduz o prêmio de risco, e prêmio menor significa deságio menor. Auditoria processual sem pendências é dinheiro no seu bolso.

Não quer fazer a conta à mão?
O Simulador Honesto usa exatamente esta fórmula — de graça.

Fazendo a conta: dois exemplos completos

Os números abaixo usam parâmetros reais de julho de 2026: Selic em 14,25% ao ano (Copom de 17/06/2026) e IPCA acumulado em 12 meses de 4,64%. A taxa de correção do crédito fica, portanto, em torno de 6,64% ao ano (IPCA + 2%).

Exemplo 1 — precatório municipal, fila longa
Exemplo didático. Valores ilustrativos do método, não cotação de mercado.
Dados

V₀ = R$ 100.000 · i = 6,64% a.a. · t = 6 anos · r = 16% a.a. (Selic + prêmio de risco municipal)

Passo 1 — projetar o crédito até o pagamento
100.000 × (1,0664)6 = R$ 147.070
É quanto o crédito valerá no dia da liquidação, corrigido pela regra da EC 136.
Passo 2 — trazer esse valor para hoje
147.070 ÷ (1,16)6 = R$ 60.360
Este é o Valor Presente: o preço que um comprador racional pagaria hoje.
Passo 3 — o deságio resultante
(100.000 − 60.360) ÷ 100.000 = 39,6%
O deságio não foi escolhido: ele saiu da conta. Prazo longo e risco alto produzem desconto alto.
Exemplo 2 — o mesmo valor, mas federal
Mesma fórmula, variáveis diferentes. Exemplo didático.
Dados

V₀ = R$ 100.000 · i = 6,64% a.a. · t = 1 ano · r = 16% a.a.

Conta completa
100.000 × 1,0664 ÷ 1,16 = R$ 91.930
Deságio teórico de apenas 8,1% — contra 39,6% do municipal.
Por que a diferença é tão grande

Não é o valor do crédito que muda. É o tempo. Seis anos de espera contra um ano de espera. É essa a razão pela qual um precatório federal e um municipal “de mesmo valor” têm preços tão diferentes — e por que aceitar deságio de municipal num crédito federal é um dos erros mais caros do mercado.

Observação de mercado

A teoria e a prática não coincidem exatamente

O Exemplo 2 devolve pouco mais de 8% de deságio, mas na prática o piso de mercado para créditos federais costuma girar em torno de 20%. Isso não é contradição — é o que a fórmula não captura:

  • Custos fixos não encolhem com o prazo. Auditoria processual, escritura em tabelionato e habilitação custam praticamente o mesmo num crédito de 1 ano e num de 6.
  • O risco processual não desaparece porque a fila é curta. Impugnações, penhoras no rosto dos autos e divergências de cálculo existem em qualquer prazo.
  • A margem do comprador é uma parcela declarada, e uma operação sem margem não se sustenta.
  • E existe uma segunda fronteira: quando faltam poucos meses para o pagamento, o mercado sério simplesmente não compra. Nenhum desconto que compense o comprador compensa você.

A régua de decisão

Calculado o valor presente, a decisão fica mais simples do que parece. Esta é a régua que usamos, e ela às vezes manda esperar:

Prazo estimado até o pagamento × orientação
0 a 7 meses O deságio raramente compensa um tempo tão curto. O crédito é corrigido e chega quase inteiro. Em regra, ESPERAR
8 meses a 2 anos Os custos fixos da operação impõem um piso econômico. Faz sentido comparar com o seu custo de oportunidade real. COMPARAR
3 a 5 anos Faixa típica de análise no mercado secundário. A operação costuma ser viável para os dois lados. VIÁVEL
6 anos ou mais Maior risco temporal e fiscal. Aqui a antecipação frequentemente faz sentido — avalie o que fará com a liquidez. AVALIAR

Faixas indicativas, calculadas sob as hipóteses ilustrativas usadas nos exemplos acima. Não são faixas universais de mercado: o deságio real depende do ente devedor, do prazo efetivo e das condições vigentes na negociação.

Os três números que decidem

O valor presente é o primeiro deles, mas sozinho não basta. Antes de assinar qualquer coisa, tenha estes três na mesa:

  • Valor Presente da espera. Quanto o crédito vale hoje, calculado com o índice correto — é o que você acabou de aprender a fazer.
  • Oferta Líquida. Quanto efetivamente cai na sua conta, com o deságio real e todas as retenções explicitadas centavo por centavo.
  • Fila Real de Espera. A sua posição cronológica atualizada e a expectativa oficial de pagamento segundo o tribunal competente.

A regra de decisão é direta: se a oferta líquida não supera o valor presente da espera, a matemática está dizendo para não vender. Se supera, a venda é financeiramente defensável — e a decisão passa a ser sua, considerando o que você fará com o dinheiro.

Há um caso em que vender pode ser certo mesmo perdendo na matemática: quando um propósito de vida concreto justifica a liquidez agora. Isso é legítimo — desde que a decisão seja tomada com os três números abertos, e não no escuro.

⚠ Como uma proposta ruim se disfarça

  • Comparar a oferta com o valor de face. "Ofereço 70% do seu precatório" soa razoável até você descobrir que o valor presente era 85%. A comparação correta é sempre com o VP, nunca com a face.
  • Omitir a correção do crédito. Qualquer conta que trate o precatório como valor congelado subestima o valor de esperar — e empurra para venda barata.
  • Misturar bruto e líquido. Comparar proposta líquida com face bruta é a forma mais comum de fazer um deságio grande parecer pequeno.
  • Prazo de validade curto. Proposta que expira sexta-feira existe para impedir que você faça exatamente esta conta.
  • Recusar-se a mostrar a memória de cálculo. Quem calcula direito não tem dificuldade em mostrar como chegou ao número.
📋 Perguntas para fazer a qualquer comprador
  • “Qual é o índice que corrige o meu crédito hoje, e qual valor presente vocês calculam para ele?”
  • “Qual é a minha posição real na fila, e de qual fonte oficial vocês tiraram essa informação?”
  • “A proposta discrimina, em reais e em percentual, o deságio real e todas as retenções?”
  • “Qual taxa de desconto vocês usaram, e como ela se decompõe entre custo de capital e prêmio de risco?”
  • “Posso levar esta proposta ao meu advogado ou a um concorrente antes de assinar?”

Essas perguntas fazem parte do Teste do Comprador, com dez itens que separam uma proposta séria de uma emboscada — e que devem ser aplicados a qualquer empresa do setor, inclusive à Única Ativos.

Por que publicamos a conta que usamos. A Única Ativos compra precatórios. Publicar a fórmula de precificação torna algumas negociações mais difíceis para nós — e é exatamente esse o ponto. Um mercado em que as duas pontas enxergam os mesmos números é um mercado em que a informação deixa de ser margem de lucro.

A mesma matemática deste artigo está programada no Simulador Honesto, com os parâmetros atualizados e o calendário de pagamento de cada ente devedor. Quando a régua pública não alcança o seu caso, a ferramenta não inventa número: encaminha para análise humana, sem chute de preço. E o método completo está no livro “Quando Não Vender o Seu Precatório”.

Perguntas frequentes

O que é o valor presente de um precatório?

É quanto o crédito vale hoje, considerando que será pago no futuro e que continua sendo corrigido até lá. Calcula-se projetando o valor até a data estimada de pagamento pela taxa de correção legal e trazendo esse resultado de volta ao presente por uma taxa de desconto que reflete custo de oportunidade e risco.

Qual índice corrige o precatório em 2026?

Sob a EC 136/2025, os precatórios são corrigidos por IPCA acrescido de juros simples de 2% ao ano, limitados à taxa Selic. Precatórios de natureza tributária seguem corrigidos exclusivamente pela Selic. A correção acumulada pelos regimes anteriores é preservada.

Como sei o prazo estimado até o pagamento?

Consulte a lista cronológica publicada pelo tribunal competente e verifique qual ano-base está sendo liquidado no momento. A distância entre esse ano e a inscrição do seu crédito indica o prazo estimado. Precatórios federais são consultados nos portais dos TRFs; estaduais e municipais, nos Tribunais de Justiça.

Qual deságio é considerado justo?

Não existe um percentual justo universal. O deságio justo é aquele que decorre da conta: prazo, taxa de correção e taxa de desconto aplicados ao seu crédito específico. Um crédito federal de prazo curto e um municipal de fila longa têm deságios legitimamente muito diferentes.

Por que a fórmula dá 8% mas o mercado pratica 20% em créditos federais?

Porque a fórmula não captura os custos fixos da operação — auditoria, escritura, habilitação —, que não diminuem com o prazo, nem o risco processual, que existe em qualquer fila, nem a margem do comprador. Em prazos curtos, esses componentes pesam proporcionalmente mais.

Vale a pena vender se o pagamento está próximo?

Em regra, não. Quando faltam poucos meses, o desconto necessário para compensar o comprador quase nunca compensa o credor — o crédito continua sendo corrigido e chega praticamente inteiro. É um dos casos em que a resposta honesta é esperar.

A conta do meu caso pode ser diferente?

Sim. Os exemplos deste guia usam juros compostos como aproximação didática, enquanto a memória oficial da EC 136 aplica IPCA acumulado somado a juros simples de 2% ao ano, limitados à Selic. Cada tribunal pode aplicar sua própria memória de cálculo, e a retenção de IRRF varia conforme o número de meses-competência no regime RRA. Trate os resultados como estimativas de ordem de grandeza.

Para continuar entendendo o seu crédito

Nota metodológica. Os exemplos deste guia usam juros compostos como aproximação didática. A memória oficial da EC 136/2025 aplica o IPCA acumulado somado a juros simples de 2% ao ano, limitados à Selic — e apenas Selic para créditos tributários. Cada tribunal pode aplicar sua própria memória de cálculo, e a retenção de IRRF depende do número de meses-competência no regime de Rendimentos Recebidos Acumuladamente (RRA). Os resultados são estimativas de ordem de grandeza, não o cálculo exato que o tribunal fará, e não substituem o cálculo individualizado do crédito nem a análise jurídica, contábil e financeira do caso concreto.

Parâmetros utilizados: Selic de 14,25% ao ano (Copom de 17/06/2026) e IPCA acumulado em 12 meses de 4,64%, resultando em taxa de correção ilustrativa de aproximadamente 6,64% ao ano. Dados de julho de 2026, sujeitos a revisão periódica.

Nota de transparência. A Única Ativos compra precatórios e, portanto, tem interesse comercial no mercado aqui descrito. Este guia tem caráter informativo e educativo, e não substitui consultoria jurídica, contábil ou financeira individualizada.

Fontes primárias: BRASIL, Constituição Federal, art. 100 · BRASIL, Emenda Constitucional nº 136/2025 · BRASIL, Emenda Constitucional nº 113/2021 · BANCO CENTRAL DO BRASIL, taxa Selic (Copom de 17/06/2026) · IBGE, IPCA acumulado em 12 meses · CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, Resolução nº 303/2019.

Faça a conta com os seus números.

O Simulador Honesto aplica esta mesma fórmula com os parâmetros atualizados e o calendário do seu ente devedor — gratuitamente. E se você decidir vender, a Única Ativos compra: envie o ofício requisitório e receba uma proposta com o cálculo aberto, comparado lado a lado com o valor de esperar.

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